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Um pacto pela vida e pelo Brasil

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A humanidade vive um de seus momentos mais dramáticos: a pandemia do Coronavírus é a tragédia do século e pode significar o fim do capitalismo como o vemos, mudança substancial dos hábitos consumistas e da visão egocêntrica de alguns, com a ressignificação da vida em comunidades. Desses dias nublados pelo menos dois efeitos reclamam mudanças de comportamentos, de políticas públicas e de relacionamentos, para fins de preservação da espécie.

O primeiro desses efeitos é a necessidade de isolamento social como recurso sanitário para minimizar a potência da proliferação do resistente vírus, que encontra nas aglomerações e nas populações mais vulneráveis o motor ideal para a sua fúnebre multiplicação. O efeito sanitário do isolamento pode ser eficiente a uma parcela da população, mas nada significa para uma grande maioria, que não possui emprego, renda, casa e um fundo de emergência, que permita suportar semanas – ou talvez meses – de inatividade. Desse modo, em pouco tempo será possível identificar o resultado econômico do conavírus, como o desabastecimento de alimentos e insumos bascos, somado ao empobrecimento dramático de milhões de pessoas.

O capitalismo e a sua versão atual, o neoliberalismo, não suportou alguns ataques e a bolha rompida veio a demonstrar que o financismo fez as apostas erradas, com amplo apoio de governos e da mídia corporativa. Dados divulgados em fevereiro de 2019 pela Economatica, entidade provedora de informações financeiras, demonstram que os 4 maiores bancos que operam no Brasil com ações na bolsa tiveram lucro 18% maior que no ano anterior. O maior quinhão ficou com o banco Itaú, com R$ 26,5 bilhões; em seguida vem o Bradesco, com R$ 22,6 bilhões de lucro, o Banco do Brasil, com R$ 18,1 bilhões e o Santander, com 14,1 bilhões. Veja, isso é lucro em dinheiro aplicado na bolsa de valores, não está a se falar em lucro advindo de financiamento direto de atividades produtivas.

Em recente artigo publicado em diversos meios de comunicação, o auditor fiscal Charles Alcântara, presidente da FENAFISCO, revelou que o Brasil possui 206 bilionários, com fortunas que – somadas – chegam a mais de R$ 1,2 trilhão. Todavia esses barões pagam proporcionalmente menos impostos que a classe média e os pobres. Se o governo finalmente obedecer ao que dita a Constituição (art. 153, VII) e criar um imposto de 3% por ano sobre a fortuna de R$ 1,2 trilhão, seria possível arrecadar R$ 36 bilhões anuais, o que supera o orçamento de 1 ano de todo o programa Bolsa-Família.

O momento exige pulso firme, propósito político de proteger a população brasileira, a sanidade física e a integridade das pessoas, contra a ameaça imediata que é o coronavírus, e o reflexo posterior, o empobrecimento drástico da população. Imagine um cidadão desempregado, com familiares passando fome, e potencialmente doentes em face da pandemia. Os saques a caminhões que transportam comida, supermercados e depósitos de alimentos, seria a única saída à morte mais indigna, por inanição, num país que produz muitos alimentos, e cria multimilionários.

O grande pacto nacional precisa começar pela vida, com a revogação das medidas que congelaram o orçamento da saúde por 20 anos, graças à criminosa PEC de Gastos Públicos (PEC 95). Não se admite que o país entregue  45 % do orçamento para pagar juros aos bancos, concentrando mais dinheiro no bolso de quem nada produz, enquanto o país empobrece e a população adoece. A entrega do pré-sal deve ser revogada, com a destinação dos lucros para investimentos em saúde e escolas. Nessa mesma linha, deve ser promovida a valorização do SUS, porque somente um sistema público estruturado pode garantir eficiência no combate à pandemia.

Desse pacto devem fazer parte a academia em geral, os cientistas e as forças vivas da sociedade, com a formação de comitês temáticos de gestão, como saúde, educação, tributação e geração de empregos. Que não se fale em eleição municipal, e que sejam prorrogados os mandatos dos atuais prefeitos e vereadores por mais um ano, sem o pagamento de salários. Uma ajuda de custo ao vereador e ao prefeito seria suficiente, e para o lugar daqueles que se recuarem ao “múnus” público, sejam convocados os suplentes, se necessário.

Quanto ao ineficiente governo federal, aí somados o lento Congresso e o aluado STF, o afastamento imediato de seus membros, com suspensão de mandatos e que se aguarde a celebração do Pacto pelo Brasil e pela vida, para a convocação de eleições gerais, para todos os cargos.

Vilson Pedro Nery, advogado especialista em Direito Público.   

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O que foi o Saladeiro?

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Instalado em 12 de junho de 1922, matadouro público, para abastecimento de carne da população cuiabana, ainda estava nas proximidades da “Boca do Valo”, em condições precárias de instalação e de higiene.

Daí as providências do Intendente Municipal (Designação dada, até pouco depois de 1920, aos chefes do poder executivo municipal, hoje chamados prefeitos), celebrando contrato com a firma Curvo & Irmãos, após a devida autorização da Câmara, removendo o matadouro para a margem direita do rio Cuiabá, no então terceiro distrito (Várzea Grande).

A partir de 1922, entrara a firma Curvo & Irmãos em ação, construindo o saladeiro de material, coberto de zinco, com regular área de boa altura.

Feitos os currais, cercados, instalada a aparelhagem geral, iniciou-se o abate das reses, passando a ser feita a remessa dos quartos de bois para os açougues de Cuiabá, a princípio em pequena lancha, até o porto e, mais tarde em automóvel, diretamente ao açougue.

A firma Curvo & Irmãos compunha-se dos sócios João Barbuíno Curvo (Sinjão Curvo), depois virou um abastado atacadista da praça comercial de Cuiabá, na qual, com seus filhos, organizou a firma J. B. Curvo, todos integrados na lata sociedade da Capital mato-grossense.

Os outros dois sócios desse empreendimento foram  Eugênio Agostinho Curvo e Plácido Flaviano Curvo que foram figuras de projeção dos meios comerciais e sociais de Cuiabá, destacando-se entre os filhos o jovem e educadíssimo, médico Dr. José Curvo.

Quando, em 1928, Sinjão Curvo, um dos dirigentes da firma, desligou-se dela pacificamente, ocupou seu lugar o irmão mais novo, Joaquim Agostinho Curvo, que logo passou para a direção do matadouro. Infelizmente foi o primeiro a desaparecer, na década de 1950, colhido pela fatalidade.

Inaugurado o saladeiro em 1922, não tardou a aparecer a concorrência clandestina de antigos açougueiros, que não contando coma legalização para fornecimento de carne aos açougues de Cuiabá e faltando-lhes, dar condições de higiene nos lugares de abate de reses, abasteciam, assim mesmo os próprios açougues com os quartos de bois, que conduziam em carroças, de Várzea Grande para a Capital.

Durante dois anos, enquanto permaneceu o desentendimento, o saladeiro sujeitou-se à charqueada, distribuindo carne em Cuiabá apenas aos seus açougues, a princípio em número de dois e, mais tarde, de quatro, obrigados que foram à montagem de mais estabelecimentos de distribuição do produto.

Em 1924, os advogados João Vilas Boas e Mário Mota defenderam a firma na justiça, entrando os açougueiros de Várzea Grande num acordo com os irmãos Curvo.

Nessa época já era açougueiro o senhor Generoso Malheiros, único a respeitar os direitos da firma, pois eram velhos amigos dos Curvo.

Recomeça, pois em 1924, a distribuição da carne verde aos açougues cuiabanos, sendo, talvez por isso que o serviço de estatística de Várzea Grande traga registrada a data de inauguração do Saladeiro a 15 de maio de 1924.

Decorreram vinte anos com altos e baixos, ataques de jornais à qualidade e ao atraso na entrega da carne aos açougues, concorrendo com outros abatedores de Várzea Grande e às variações de preço no comércio de gado.

A empresa lutou com dificuldades algumas vezes, fases essas amenizadas com os lucros resultantes da criação de porco e galináceos em regular quantidade, alimentados com os detritos das reses abatidas diariamente.

Pacatos e trabalhadores, os irmãos Curvo passaram a negociar até mesmo os chifres e os cascos das reses, tal a procura vinda mais tarde, e assim lograram vencer metade do prazo do contrato, em modestas condições de prosperidade.

Passados vinte anos, a firma conseguiu a renovação de contrato, mas, poucos anos depois, falecendo o sócio Joaquim Agostinho Curvo, o que conservava relativa mocidade e, portanto quem andava à frente dos negócios do abate das reses, eis que outros dois irmãos, já encanecidos (velhos) naquela luta e que eram mais dos escritórios, resolveram transferir os direitos da firma a Generoso Malheiros e Filho.

Com a inauguração da Sadia em 1977, quando o Saladeiro já não mais existia, sendo demolidos os paredões restantes das instalações que os irmãos Curvos construíram, apagou-se na memória de alguns, na grande Cuiabá, a lembrança dos serviços prestados pelo antigo matadouro, durante cerca de quarenta e cinco anos.

E nem se pode estabelecer confronto entre o moderno, para uma população dez vezes superior nos nossos dias, e o arcaico, que resolvia os problemas de 40 a 50 mil habitantes da Capital mato-grossense do passado.

Cada povo tem a sua época e atual e de renovação, mas para muitos cuiabanos dos velhos tempo ficou o respeito que se deve aos irmãos Curvos e recordações do velho Saladeiro, que eles com sacrifício construíram.

 

LOCALIZAÇÃO DO ANTIGO SALADEIRO

Em 1911, Várzea Grande passou a ser 3º Distrito de Cuiabá e a chácara do Isolamento como era chamado o local lhe pertencia por estar na margem direita do rio. Quatro anos depois, a 17 de novembro de 1915, essa área era reincorporada ao patrimônio do Estado, pelo decreto nº 413, face a dissolução da Sociedade Mato-grossense de Agricultura, com todas as benfeitorias que diga-se de passagem eram pouquíssimas.

Em 1921, pela resolução nº 854 de 7 de novembro, o governo cedeu os direitos de posse desse terreno à municipalidade de Cuiabá e pelo decreto da Intendência da Capital, de nº 592 de 12 de junho de 1922, era ali instalado o Matadouro Modelo dos Irmãos Curvos, que permaneceu no ramo até a década de 50, transferindo o a Firma Malheiros e Filho. Pela Lei já do Município de Várzea Grande, de nº 354 de 19/02/1968, na gestão da Prefeita Sarita Baracat, a referida área foi doada ao Grupo Frivar S/A, com o compromisso de instalar nela um Frigorífico com abate de bovinos e suínos.

Findo o prazo e não tendo sido possível cumprir o ajuste, entrou a Frivar em espécie de convênio com a Sadia Oeste S/A e a partir de 1972, por intermédio do empresário Ingo Klein, iniciaram-se as negociações com o município e contou com a colaboração imediata do prefeito que assumia em 1º de fevereiro de 1973, o jovem Júlio José de Campos. Com a significativa colaboração de Júlio Campos os trabalhos de instalações da Empresa se aceleraram e em 25 de novembro de 1977 foi inaugurado no bairro hoje chamado de Alameda Júlio Muller, que já teve o nome de Estrada do Saladeiro porém, não mais na margem do rio Cuiabá e sim em uma área alguns metros acima, que recebeu um enorme aterro e sobre este erigiram-se grandes depósitos, escritórios e demais instalações.

O casarão do antigo Saladeiro sito na barranca do rio, foi demolido e nada ficou do antigo Porto de Isolamento, senão as lembranças dos sombrios tempos das revoluções em Mato Grosso, ao romper do século.

 

Wilson Pires de Andrade é jornalista em Mato Grosso

 

 

 

 

 

 

 

 

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