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Seo Fiote: 102 anos de uma história política

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Legenda foto: Em 26/07/53 quando o então prefeito Júlio Domingos de Campos passava o cargo de prefeito de Várzea Grande ao senhor Licínio Monteiro.

Olhar alegre, voz pausada e um dom inigualável para cativar as pessoas, assim era o empresário Júlio Domingos de Campos, o seu “Fiote”, uma lenda da política várzea-grandense. No dia 09 de janeiro se comemora os 102 anos de seu nascimento.
Apontado como o mais habilidoso político do Brasil pelo ex-governador Paulo Salim Maluf, de São Paulo, o empresário Júlio Domingos de Campos, conhecido por todos pelo apelido de “Fiote” foi considerado como um homem “sui gêneris” na vida pública. Conseguiu ter dois filhos eleitos prefeitos do município que administrou e também eleitos governadores do Estado natal. “Não sou pai do governador: sou apenas Fiote”, costumava dizer todas as vezes que alguém lembrava o fato de ser genitor de dois governadores.
Nascido em Várzea Grande, no dia 9 de janeiro de 1917, seu Fiote foi o que se pode chamar verdadeiramente de um pai feliz. Filho de Benedito Paulo de Campos e Porfíria Paula de Campos, ambos de Nossa Senhora do Livramento e que se radicaram em Várzea Grande em 1902, seu Fiote tinha três paixões: a família, o comércio e a política.
O casal Benedito Paulo e dona Porfíria formaram um casal modesto e tiveram três filhos, todos várzea-grandenses: Gonçalo, Júlio Domingos e Maria Agostinha. Eles nasceram no tempo em que a Várzea-Vila Real era o terceiro Distrito de Cuiabá. Por isso, receberam educação em casa e nas escolas primárias da época.
Como a vida era bastante difícil, sem qualquer conforto, Gonçalo, Júlio e Maria Agostinha começaram a trabalhar desde criança. Coincidentemente, todos no ramo comercial.
Em pouco tempo, seu Fiote se casou com dona Amália Curvo, natural de Nossa Senhora do Livramento, com quem namorou vários anos. Dona Amália Curvo passou a colaborar com o esposo ainda jovem no ramo de Bolicho.
Júlio Domingos se estabeleceu com uma casa comercial varejista e batizada de “A Futurista”, na atual Avenida Couto Magalhães, esquina com Rua 24 de maio, recebeu o apoio de toda família e progrediram na vida profissional trabalhando no comercio.
O casal teve dez filhos: seis mulheres e quatro homens: Doralice, Júlio, Circe, Juraci, Jaime, João, Ivete, Benedito, Marilene e Márcia.
Trabalhavam juntos no comércio, mas dona Amália nunca se descuidou dos afazeres do lar. “Sempre foi muito dedicada como esposa e mãe”, sempre dizia, sem esconder o orgulho.
Depois de alguns anos, o pequeno Bolicho de seu Fiote foi crescendo, ele colocou o seu tino comercial para trabalhar e, sempre que podia, socorria os humildes, como comentava o seu compadre e amigo Licínio Monteiro da Silva. “Era querido por todos”, assegurava Licínio.

ESPÍRITO POLÍTICO
Além da visão comercial incomum, Júlio Domingos de Campos tinha grande interesse pela política. Desde a juventude foi amigo e compadre de Lícinio Monteiro (padrinho de Jaime Campos).
Em 1945 entraram juntos na política, pelo Partido Social Democrático, o PSD. Em 1947, Licínio conquistou uma cadeira na Assembleia Legislativa e teve em Fiote, o seu maior amigo e mais fiel cabo eleitoral. “Naquele tempo, não existia dinheiro em eleição e a campanha era feita de porta-em-porta, avisando aos amigos quem era o candidato da região”, lembrava seu Fiote com uma ponta de nostalgia.
Em 23 de setembro de 1948, Várzea Grande conseguiu a tão sonhada emancipação político-administrativa. “Olha compadre, a eleição de 49 está aí e você é meu candidato a vereador”, avisou o então deputado Licínio Monteiro. Fiote pensou um pouco e decidiu se candidatar. Acabou sendo o vereador mais votado daquela eleição e, proporcionalmente, o mais votado da história de Várzea Grande. Porém, a oposição conquistou a Prefeitura Municipal, elegendo como prefeito o senhor Gonçalo Botelho de Campos, o Nho-Nhô Tamarineiro.
Contudo, Botelho de Campos decidiu se candidatar a deputado estadual e deixou a Prefeitura Municipal. O então presidente da Câmara de Várzea Grande, o vereador Benedito Gomes, pai do ex-prefeito Carlos Gomes, assumiu a Prefeitura e convocou eleições em 45 dias, que elegeria o novo prefeito para um mandato de dois anos, o que seria chamado de “mandato tampão”.
Licínio Monteiro não perdeu a oportunidade e convocou o seu velho amigo Fiote para ser o candidato a prefeito pelo PSD. Com apenas um mês de campanha, Júlio Domingos de Campos arrasou os adversários. Cumpriu seu mandato até dezembro de 1953.
Na sua primeira passagem pela Prefeitura de Várzea Grande, seu Fiote trabalhou diretamente com a comunidade, especialmente com a população de baixa renda do município. Não deixava de fazer a assistência necessária aos humildes. Por isso, Fiote conquistou o eleitorado e comandou a campanha de Licínio Monteiro à Prefeitura Municipal, em 1953.
Licínio Monteiro da Silva governou Várzea Grande de 1954 a 1957. Quando ia deixar o Executivo Municipal, Licínio avisou: “compadre, agora é a sua vez. Vou voltar para a Assembleia”.
Júlio Domingos estava disposto a continuar apenas trabalhando em seu comércio. Todavia, o apelo dos correligionários do PSD e a convocação do amigo e compadre Licínio fizeram com que enfrentasse nova candidatura. Nas pesquisas de casa-em-casa, o candidato da UDN liderava. Porém, após o escrutínio dos votos, Fiote venceu por larga margem e retornou à Prefeitura de Várzea Grande.
Fiote fez uma grande administração para a época. Ele aumentou a rede de água do município, asfaltou a rua principal – Couto Magalhães, e construiu escolas municipais nos povoados carentes. Abriu a primeira estrada ligando a sede de Várzea Grande à Guarita e, mais tarde, à Passagem da Conceição, que na época era complemente isolada. Era uma façanha.

DEDICAÇÃO À FAMÍLIA
Após quatro anos, quando encerrou o seu mandato em 1961, Fiote decidiu se dedicar apenas ao comércio e á família. Dizia que os filhos precisavam ser educados em um centro maior.
Mudou-se para Cuiabá em 1965. Educando os filhos, e conseguiu dar uma formação melhor a todos.
Sentia-se realizado, teve dois filhos governador do Estado e os demais trabalhando por Mato Grosso em suas áreas.
De acordo com o coronel Ubaldo Monteiro, Fiote foi o mesmo amigo de sempre. Não enchia de vaidade, mesmo sabendo que deixava um grande exemplo. Dizia que Fiote era um homem muito simples, que trabalhou e educou seus filhos com muito suor do dia-a-dia. Não cansava de dizer, que Fiote só não foi governador de Mato Grosso porque não quis.
Ele se tornou referência política na época do bipartidarismo entre PSD e UDN. Aliado de Filinto Muller e João Ponce de Arruda, ambos do PSD, Fiote foi cortejado pelos udenistas, mas nunca aceitou trocar de lado.
Uma das rotinas do “seo Fiote era passar os finais de semana em sua propriedade rural em Jangada. Foi sem dúvida, dono de uma das mais tradicionais histórias política de Mato Grosso.
Júlio Domingos de Campos trabalhou a vida inteira para criar os filhos e acabou transformando Fiote em uma lenda. Até hoje, ninguém sabe explicar se é lenda ou seria um mito.
Júlio Domingos de Campos morreu aos 90 anos de idade, no dia 21 de setembro de 2007.
Wilson Pires de Andrade é jornalista em Mato Grosso

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Gonçalo Domingos de Campos e seus segredos

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Mesmo afastado das disputas eleitorais há algum tempo, ele ainda acompanhava o cotidiano da política em Várzea Grande e, dependendo da ocasião, em Mato Grosso. Foi vereador e presidente da Câmara Municipal, quando Napoleão José da Costa era prefeito de Várzea Grande. Por muitos anos, resistiu à tentação de ser candidato à Prefeitura Municipal e, em 1969, lançou a candidatura do seu filho mais velho Ary Leite de Campos, que mais tarde seria presidente do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso. Trata-se do comerciante Gonçalo Domingos de Campos, irmão de Júlio Domingos de Campos – o seo Fiote e tio dos ex-governadores Júlio e Jayme Campos.

Gonçalo Domingos de Campos, nasceu no dia 11 de janeiro de 1917, há 104 anos e foi casado com dona Dirce Leite de Campos. O casal teve oito filhos, quatro homens e quatro mulheres: Ary Leite de Campos, Terezinha Catarina de Campos Monteiro, Gonçalo Domingos de Campos Filho, Atair Leite de Campos, Maria Nazarello de Campos, Antonina Leite de Campos e Marisa Leite de Campos. Deles, o mais velho Ary Leite de Campos decidiu suceder o pai na vida pública.

Sempre foi comerciante, estava no ramo desde os 16 anos de idade. O primeiro empório que teve foi na travessa 24 de maio, vendendo secos e molhados. Depois ampliou a sua empresa e montou uma máquina de beneficiamento de arroz, uma das primeiras da Baixada Cuiabana. “Naquele tempo, tudo era difícil”, observava Gonçalo Domingos, lembrando que havia apenas um ônibus ligando Várzea Grande até Cuiabá.

 

VIDA PÚBLICA

De família tradicional na política mato-grossense, Gonçalo Domingos de Campos sempre acompanhou as disputas eleitorais na Cidade Industrial. Porém, durante toda a sua carreira política ele foi adversário de seu irmão, seo Fiote. Gonçalo pertenceu à UDN e Fiote ao PSD.

Somente em 1969, quando Ary Campos foi lançado candidato a prefeito de Várzea Grande a família Campos se uniu novamente. Ary venceu o candidato da então prefeita Sarita Baracat, Antonino Costa. Em 1972, a família Campos continuou unida e o recém-formado engenheiro agrônomo Júlio José de Campos, sobrinho de Gonçalo e filho de Fiote, se elegeu prefeito de Várzea Grande vencendo o empresário Rubens dos Santos e o jornalista Almerindo Costa (MDB). Ele se orgulhava de ter coordenado todas as campanhas de Ary Leite de Campos, a prefeito de Várzea Grande e três para a Assembleia Legislativa, todas vitoriosas. Em 1982, Ary Leite de Campos foi o deputado estadual mais votado de Mato Grosso, tendo recebido quase vinte mil votos.

 

VELHOS TEMPOS

Ele se considerava um privilegiado por ter acompanhado o processo de desenvolvimento de Várzea Grande, Gonçalo de Campos recordava que no passado os tempos eram bem mais difíceis. Ele lembrava que quando foi vereador na Cidade de Várzea Grande: faltava tudo. Energia elétrica era escassa e beneficiava menos de 20% da população e não existia rede de água tratada. A água era retirada dos tradicionais poços de fundo de quintal, perfurados “no muque”, com ferramentas rudimentares.

Até 1942, para se chegar em Cuiabá, era apenas de balsa. Então foi construída a Ponte Júlio Muller, batizada de “Ponte Velha”, ligando Cuiabá e Várzea Grande. Mesmo assim, o transporte continuou deficiente. Passou de charretes para um ônibus que passava a maior parte do tempo “desconcertado”, aguardando peças de reposição do Rio de Janeiro. O ônibus tinha três horários de partida para Cuiabá: as 7, 11 e 17 horas.

Mas o principal meio de transporte continuou sendo a charrete até o final da década de 60, quando começaram a circular os ônibus convencionais. Primeiro, da empresa Rápido Noroeste, que depois passaria a se chamar Estrela D’Alva.

 

DIVERSÃO

A maior diversão da época eram as corridas de cavalo. No antigo Morro Vermelho, onde mais tarde foi instalada a Grande Veículos e a Trescinco Caminhões, havia uma raia para corridas de cavalos. As arquibancadas de madeira comportavam aproximadamente duas mil pessoas e as apostas eram altas. O comerciante Ulysses Pompeo de Campos, possuía na época os melhores cavalos de Várzea Grande. Com o cavalo “Brinde”, Pompeo de Campos dominou as corridas por quase dez anos na Cidade Industrial. “Quando Brinde” corria era fácil ganhar: em várias ocasiões ganhei dinheiro apostando nesse cavalo”, rememorava Gonçalo Domingos de Campos.

Os desportistas de Várzea Grande se dividiam em dois grupos: os que gostavam de futebol e aqueles que se dedicavam as corridas de cavalos. Os adeptos do futebol, mais tarde, ajudaram Rubens dos Santos a fundar o Operário de Várzea Grande, em 1949. Mas Gonçalo Domingos pertencia ao grupo apaixonados pelas corridas de cavalos.

Descendente de Nossa Senhora do Livramento, Gonçalo de Campos não pensou duas vezes para se casar, em 1940. Desposou dona Dirce Leite de Campos, filha do coronel João Vicente Pedro de Barros, líder que comandou a política por muitos anos em Nossa Senhora do Livramento, nas décadas de 30, 40 e 50.

 

Wilson Pires de Andrade é jornalista em Mato Grosso.

 

 

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