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Lixo tóxico

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O debate político no Brasil foi bastante contaminado nos últimos tempos, é possível citar um marco temporal, apenas para efeito de análise, e ele começa no ano de 2013 quando o mundo sofria os efeitos da chamada “guerrilha virtual”. Com o uso dos novíssimos “bots” e as redes sociais sem qualquer regulação civilizada, setores empresariais e vendedores de informação começam a agir com novas ferramentas, desestruturando a democracia em todo o planeta. Não demorou e isso chegou ao Brasil, a nossa versão da Primavera Árabe.

Sempre fui contra a utilização de recursos financeiros de empresas para o financiamento de campanhas eleitorais, porque todos nós sabemos que o interesse delas nunca é combina com o desejo da população. O povo quer escola, aposentadoria, liberdade e comida. A empresa quer lucro, simplesmente assim, capitalismo selvagem na essência, e bancou a proliferação de lixo tóxico na política.

O problema é que as empresas conseguem manter-se no comando das coisas, mesmo após tanta mudança legislativa, tais como a Lei da Ficha Limpa e a criação dos mecanismos de financiamento público de campanha eleitoral (Lei nº 13.877, de 2019).

No Brasil nem todo mundo tem acesso à internet, porque o serviço é muito caro e mal prestado. Porém, esquemas como o “Cambrige Analytica” é prova de que os capitalistas seguem no comando. A Cambrige Analytica é uma empresa de mineração de dados, usa programas e robôs para buscarem informações de usuários de redes sociais, o Facebook incluído, investigando o perfil psicológico das pessoas. Assim, no momento em que “dá um like” na foto de um gatinho, ou “curte” uma postagem do aniversário do sobrinho, o internauta cede dezenas ou milhares de informações aos bots. E logo ele começa a receber publicidade “de acordo” com o seu perfil, inclusive propaganda política e ideológica. Tem início uma espécie de hipnose, em que a reação e as decisões da pessoa (em relação a compras, desejos, o voto na eleição) são administradas por um programa de computador que dita o algoritmo.

Para entender “algoritmo” uso um exemplo simples: a pessoa levanta da cama pela manhã, calça o chinelo, vai ao banheiro, escova os dentes e em seguida vai à cozinha beber seu café. Essa repetição de ações é um algoritmo. O problema ocorre quando a ordem das coisas que a gente faz é ditada, via hipnose, por um programa de computador, um bot.

Voltando ao escândalo da empresa Cambrige Analytica; essa gente sofreu investigações do governo do Reino Unido e do Congresso Estados Unidos, quando foi revelado que foi utilizada para fraudar a eleição do presidente Trump e a votação do Brexit (quando os ingleses votaram para sair da União Européia, enfraquecendo o bloco de países). Um dos dirigentes da empresa é Steve Bannon, amigo do peito dos filhos de Jair Bolsonaro, eleito presidente do Brasil, e o “muso inspirador” de muitas campanhas de ódio, discriminação e racismo nas redes sociais.

O documentário Privacidade Hackeada (Netflix, 2019) mostra, com detalhes bastante chocantes, o nível de influência que as técnicas da Cambridge Analytica tiveram em diversas campanhas políticas em todo o mundo. Aí se inclui a Argentina (2015), Trindade e Tobago (2009), Tailândia (1997), Índia (2010), Malásia (2013), Itália (2012), Quênia (2013), Colômbia (2011), Brasil (2018) para citar alguns países. Alguém aí lembra do kitgay e da mamadeira erótica que aterrorizaram os eleitores brasileiros no ano passado?

Outro grande problema relacionado à participação de empresas em financiamento ilegal de campanha eleitoral no Brasil possui relação com institutos e ONGs que financiam “sua própria” bancada. Empresários sustentam “movimentos” como o Renova BR, elegem bancadas multipartidárias, “plantando” políticos em agremiações diversas. Tudo isso é feito nas barbas da Justiça Eleitoral, que a tudo vê e nada fala. Para saber mais é bom pesquisar: Movimento Acredito; Agora!; Renova Brasil; Livres; Ocupa Política; Muitas; Vote Nelas; e a Rede de Ação Política pela Sustentatibilidade. Pode até não ser ilegal, mas são empresas reunidas em grupos de interesses, criando condições para eleição de bancadas que defendem as empresas, e não os trabalhadores.

Na votação da Ação Direta de Constitucionalidade nº 44, uma proposta da Ordem dos Advogados do Brasil, o Supremo Tribunal Federal permitiu, em margem apertada, que regras constitucionais sigam respeitadas, e o ex presidente Lula retomou a defesa de sua liberdade. Sem as amarras da masmorra que alguns atores tóxicos do sistema de justiça impuseram-lhe, criminosamente. É esperado que o debate civilizado volte a ter espaço no Brasil, e que os fraudadores da democracia sejam apenados de acordo com seus atos. É necessário se insurgir contra os ataques à soberania, pelo fim das fraudes em processos judiciais e nas eleições, reforçar as defesas dos direitos civis e das liberdades.

Vilson Pedro Nery, advogado especialista em Direito Público.

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Estamos em guerra contra o mesmo inimigo

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Em março deste ano Cuiabá começou uma guerra contra um inimigo invisível: o coronavírus, causador desta doença terrível que é a COVID-19. O que muita gente não sabe, é que a Prefeitura começou a se armar para este combate em janeiro, quando ainda não tínhamos nenhum caso no Brasil. Nossa valorosa equipe técnica da Saúde enxergou que teríamos dias difíceis e começamos a nos organizar em fevereiro, fazendo a aquisição de insumos, EPIs e equipamentos para nossos hospitais. Também montamos um comitê com os mais diversos especialistas, que desde então vêm fazendo estudos e norteando as ações tomadas pela gestão frente à pandemia.

Todos nós da Secretaria Municipal de Saúde, juntamente com o prefeito Emanuel Pinheiro estamos trabalhando muito, até bem tarde, sem direito a sábados, domingos e feriados. Se administrar uma secretaria de saúde já é um desafio imenso, com milhares de problemas, imagine o que é conduzir uma secretaria de saúde durante uma pandemia? É algo inimaginável! Os problemas, que já eram muitos, não param de se multiplicar e é preciso resolver cada um deles para a engrenagem continuar a funcionar.

Neste momento todos nós, sem exceção, temos apenas um inimigo: o coronavírus. As medidas de contenção que tomamos ainda em março foram para diminuir a velocidade de transmissão do vírus para dar tempo de organizarmos nossos hospitais, pois sabíamos que teríamos muitas pessoas doentes. E conseguimos nos organizar.

Mas, como aconteceu no resto do mundo, além da população ficar doente, nossos profissionais de saúde começaram a ficar doentes também. Esse vírus é altamente contagioso, e, mesmo com todo o cuidado, muitos profissionais da saúde adoeceram. Para esses, que estão na linha de frente, cuidando da população, salvando vidas, eu só tenho a agradecer. Vocês são verdadeiros heróis, que honram as profissões que escolheram. É preciso gostar de gente para cuidar de gente, e vocês, médicos, enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem, fisioterapeutas, psicólogos, entre vários outros profissionais que atuam na linha de frente merecem o agradecimento e a admiração de toda a população.

Quando eu falo dos profissionais que se acovardaram, em momento algum me refiro a estes que estão lutando para salvar vidas. Também não me refiro aos que estão afastados por serem do grupo de risco, seja por idade ou por comorbidade. Me refiro aos que entraram com pedido de afastamento usando atestados sem terem motivos reais para isso. Tivemos pedidos de afastamento de mais de 1500 profissionais da saúde desde que a pandemia começou e cada pedido destes foi periciado. Muitos destes pedidos foram indeferidos pelo médico que fez a perícia, pois ele constatou que não havia motivos para estes profissionais não trabalharem. São esses profissionais que eu disse que se acovardaram, pois ao invés de se juntarem às equipes que estão combatendo a pandemia, decidiram se esconder atrás de um atestado fajuto.

Peço desculpas aos profissionais da saúde que estão na linha de frente do combate à pandemia e que se sentiram ofendidos pela colocação que eu fiz. Tenham certeza de que a minha fala não foi direcionada a vocês. Como filho de médico que sou, tenho um grande respeito por quem trabalha nesta área, de maneira séria e comprometida.

Neste momento venho a público pedir que todos nós nos unamos para ganharmos essa luta contra o coronavírus. Estamos fazendo todo o possível para continuar salvando vidas. Estamos correndo contra o tempo para abrir mais 40 leitos de UTI na próxima semana, para que mais pacientes tenham chance de sobreviver. Agora não é hora de brigas políticas, de boicotes, de acusações… Agora é hora de união contra este inimigo que já ceifou mais de 60 mil vidas no país e quase 200 só aqui em Cuiabá. Precisamos do apoio da União, do Governo, dos Conselhos de Classe, sindicatos, dos políticos, da imprensa e de toda a população para vencermos este vírus. Nós, gestores e os profissionais da saúde não somos o inimigo! Nós estamos trabalhando arduamente para salvarmos vidas! Precisamos de toda a ajuda possível para ganharmos esta guerra e voltarmos ao normal. E só vamos ganhar se estivermos unidos!

 

Luiz Antonio Pôssas de Carvalho – Secretário Municipal de Saúde

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