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De memória

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Madorna. Isso mesmo. Entre sono profundo e acordado. Espremido no banco do caminhão tentava dormir à espera da alta madrugada para a partida. O olho teimava em não pregar e, enquanto isso ouvia Collid Filho com o melhor da música nas ondas da Tupi do Rio. Em determinado momento, ao som de Peixe vivo, Collid anunciou com voz embargada que Juscelino não estava mais entre nós, pois fechara os olhos pra sempre. Aumentei o volume, levantei-me e cabisbaixo ouvi os poucos detalhes sobre o adeus de JK. Era 22 de agosto de 1976. Sai de Fica Fica antes do nascer do sol, com a sombra da noite em doloridas trevas pela falta do nosso presidente visionário, que enxergava além da linha do horizonte, sem tirar os pés do chão.

 

Havia patrulhamento no rádio e pouco se falou sobre JK. No dia seguinte, por volta de 11 horas, em Juscimeira, soube mais detalhes. À tarde, em Rondonópolis, que era meu destino, conversei com amigos sobre a fatalidade. O Brasil chorava seu maior estadista. Os militares, donos do poder, não tinham como conter as manifestações de amor, carinho, respeito, admiração e muita dor pelo líder que partia.

 

Fica Faca foi como se tornou conhecida uma vila de Chapada dos Guimarães, e que mais tarde seria Nova Brasilândia. Sua ligação com o mundo era por uma estradinha que desembocava no Posto Paraná, de Otávio Eckert – à margem da BR-070 -, que ali chegou em 1974, quando tudo ao redor era vazio demográfico no cerrado. Trazendo JK para a dimensão do pequeno empresário Eckert lançou o loteamento que virou a bela Campo Verde.

 

Quando partiu, JK estava com os direitos políticos cassados por Ato Institucional. Era exilado em seu país. Carregava na alma a dor das humilhações a que foi submetido por sadismo de Estado. Tinha, porém, a consciência tranquila, as mãos limpas, a alma pura e um coração que pulsava pelo povo de sua terra. Transcorridos 42 anos do acidente na Via Dutra, que fechou seus olhos e apagou o olhar de Geraldo Ribeiro, seu amigo e motorista há 30 anos, o Brasil é um grande vazio de liderança.

 

O estadista foi além. Não se limitou a entrar para a história. Virou lenda. Cultivo respeito por ele. O menino órfão do pai João César de Oliveira, caixeiro-viajante que não resistiu ao frio das montanhas de Minas, JK teve infância pobre ao lado da mãe, a professora Mestra Júlia Kubitschek. Telegrafista, conquistou diploma de médico e alcançou a patente de coronel da PM Mineira.

 

Gerações se sucedem e o culto ao estadista continua. Sou testemunha disso. Minha neta Ana Júlia, 10 anos, o reverencia. Visita o Museu JK em Brasília e lê sobre ele. É xará de Mestra Júlia. Conversamos sobre nosso estadista. Ela, criança pura. Eu, na terceira idade e ferido pela dureza da vida. Somos unidos pelo amor que brota da consanguinidade e por paixão pela memória de Juscelino Kubitschek de Oliveira, o Nonô, o JK.

 

 

 

Eduardo Gomes de Andrade é avô paterno de Ana Júlia Marcondes de Andrade e ambos são juscelinistas

 

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Gonçalo Domingos de Campos e seus segredos

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Mesmo afastado das disputas eleitorais há algum tempo, ele ainda acompanhava o cotidiano da política em Várzea Grande e, dependendo da ocasião, em Mato Grosso. Foi vereador e presidente da Câmara Municipal, quando Napoleão José da Costa era prefeito de Várzea Grande. Por muitos anos, resistiu à tentação de ser candidato à Prefeitura Municipal e, em 1969, lançou a candidatura do seu filho mais velho Ary Leite de Campos, que mais tarde seria presidente do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso. Trata-se do comerciante Gonçalo Domingos de Campos, irmão de Júlio Domingos de Campos – o seo Fiote e tio dos ex-governadores Júlio e Jayme Campos.

Gonçalo Domingos de Campos, nasceu no dia 11 de janeiro de 1917, há 104 anos e foi casado com dona Dirce Leite de Campos. O casal teve oito filhos, quatro homens e quatro mulheres: Ary Leite de Campos, Terezinha Catarina de Campos Monteiro, Gonçalo Domingos de Campos Filho, Atair Leite de Campos, Maria Nazarello de Campos, Antonina Leite de Campos e Marisa Leite de Campos. Deles, o mais velho Ary Leite de Campos decidiu suceder o pai na vida pública.

Sempre foi comerciante, estava no ramo desde os 16 anos de idade. O primeiro empório que teve foi na travessa 24 de maio, vendendo secos e molhados. Depois ampliou a sua empresa e montou uma máquina de beneficiamento de arroz, uma das primeiras da Baixada Cuiabana. “Naquele tempo, tudo era difícil”, observava Gonçalo Domingos, lembrando que havia apenas um ônibus ligando Várzea Grande até Cuiabá.

 

VIDA PÚBLICA

De família tradicional na política mato-grossense, Gonçalo Domingos de Campos sempre acompanhou as disputas eleitorais na Cidade Industrial. Porém, durante toda a sua carreira política ele foi adversário de seu irmão, seo Fiote. Gonçalo pertenceu à UDN e Fiote ao PSD.

Somente em 1969, quando Ary Campos foi lançado candidato a prefeito de Várzea Grande a família Campos se uniu novamente. Ary venceu o candidato da então prefeita Sarita Baracat, Antonino Costa. Em 1972, a família Campos continuou unida e o recém-formado engenheiro agrônomo Júlio José de Campos, sobrinho de Gonçalo e filho de Fiote, se elegeu prefeito de Várzea Grande vencendo o empresário Rubens dos Santos e o jornalista Almerindo Costa (MDB). Ele se orgulhava de ter coordenado todas as campanhas de Ary Leite de Campos, a prefeito de Várzea Grande e três para a Assembleia Legislativa, todas vitoriosas. Em 1982, Ary Leite de Campos foi o deputado estadual mais votado de Mato Grosso, tendo recebido quase vinte mil votos.

 

VELHOS TEMPOS

Ele se considerava um privilegiado por ter acompanhado o processo de desenvolvimento de Várzea Grande, Gonçalo de Campos recordava que no passado os tempos eram bem mais difíceis. Ele lembrava que quando foi vereador na Cidade de Várzea Grande: faltava tudo. Energia elétrica era escassa e beneficiava menos de 20% da população e não existia rede de água tratada. A água era retirada dos tradicionais poços de fundo de quintal, perfurados “no muque”, com ferramentas rudimentares.

Até 1942, para se chegar em Cuiabá, era apenas de balsa. Então foi construída a Ponte Júlio Muller, batizada de “Ponte Velha”, ligando Cuiabá e Várzea Grande. Mesmo assim, o transporte continuou deficiente. Passou de charretes para um ônibus que passava a maior parte do tempo “desconcertado”, aguardando peças de reposição do Rio de Janeiro. O ônibus tinha três horários de partida para Cuiabá: as 7, 11 e 17 horas.

Mas o principal meio de transporte continuou sendo a charrete até o final da década de 60, quando começaram a circular os ônibus convencionais. Primeiro, da empresa Rápido Noroeste, que depois passaria a se chamar Estrela D’Alva.

 

DIVERSÃO

A maior diversão da época eram as corridas de cavalo. No antigo Morro Vermelho, onde mais tarde foi instalada a Grande Veículos e a Trescinco Caminhões, havia uma raia para corridas de cavalos. As arquibancadas de madeira comportavam aproximadamente duas mil pessoas e as apostas eram altas. O comerciante Ulysses Pompeo de Campos, possuía na época os melhores cavalos de Várzea Grande. Com o cavalo “Brinde”, Pompeo de Campos dominou as corridas por quase dez anos na Cidade Industrial. “Quando Brinde” corria era fácil ganhar: em várias ocasiões ganhei dinheiro apostando nesse cavalo”, rememorava Gonçalo Domingos de Campos.

Os desportistas de Várzea Grande se dividiam em dois grupos: os que gostavam de futebol e aqueles que se dedicavam as corridas de cavalos. Os adeptos do futebol, mais tarde, ajudaram Rubens dos Santos a fundar o Operário de Várzea Grande, em 1949. Mas Gonçalo Domingos pertencia ao grupo apaixonados pelas corridas de cavalos.

Descendente de Nossa Senhora do Livramento, Gonçalo de Campos não pensou duas vezes para se casar, em 1940. Desposou dona Dirce Leite de Campos, filha do coronel João Vicente Pedro de Barros, líder que comandou a política por muitos anos em Nossa Senhora do Livramento, nas décadas de 30, 40 e 50.

 

Wilson Pires de Andrade é jornalista em Mato Grosso.

 

 

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