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A importância dos Povos Indígenas

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O dia nove de agosto foi comemorado o Dia Internacional dos Povos Indígenas e há dezessete anos eu conheci nove desses povos aqui no Brasil e a partir de então, toda a minha visão de humanidade se transformou (ainda bem!).

Era o ano 2003. Eu, recém formada, com a ilusão quase infantil  que conhecia  o mundo e dominava todos os saberes, tive a  salvadora oportunidade de trabalhar como farmacêutica do Distrito Sanitário Especial Indígena de Cuiabá,  unidade sanitária da Fundação Nacional de Saúde, que era  responsável por planejar e acompanhar a execução dos serviços de saúde de nove etnias do estado de Mato Grosso.  Nunca na minha graduação eu cheguei a imaginar que teria como primeira experiência profissional algo tão desafiadora.

Lembro-me como hoje a primeira vez que pisei em uma aldeia. Era noite. Fiz uma viagem cansativa até o interior do Estado com a equipe de saúde, que de forma volante atenderia a população daquele território sanitário. Tudo era muito novo para mim e para eles, que me olhavam curiosos devido à novidade de ambos os lados. E bastou amanhecer para eu aprender, ali, já nos primeiros dias que saúde é algo bem mais amplo e complexo do que eu havia aprendido nos livros.

Com os povos que trabalhei – sim, no plural, pois cada etnia é uma cultura única e possui forma particular de conceber a saúde e a doença- eu aprendi que saúde é mais que poder ter o acesso aos serviços de saúde ou ter acesso aos medicamentos. Foi com eles que eu aprendi que saúde não se vendia em caixas; que saúde era muito mais.

Convivendo com eles eu aprendi como a saúde está relacionada com a cultura do indivíduo, com o direito de cada um levar a vida da forma como você entende o que é a vida.   Que a Saúde tem a ver com acesso ao alimento, ao direito à terra, ao direito à educação, ao saneamento básico e ao direito à existência e suas particularidades. E nada disso eu aprendi na faculdade. Nada. O que aprendi, representava muito pouco perto do que eu precisava saber para de fato construir uma assistência à saúde realmente efetiva.

E foi por esse caminho, o da constatação da total falência do modelo biomédico de atenção à saúde, que eu precisei buscar um campo que concebesse a saúde dentro de toda complexidade que ela compreende e foi aí que eu conheci o Sistema Único de Saúde e dele, acredito eu, que jamais saí.

Buscando me instrumentalizar para essa realidade tão complexa, fiz especialização em Políticas Públicas e meu mestrado. Foi estudando o Sistema Único de Saúde que consegui ferramentas para ajudar a implantar a Assistência Farmacêutica dentro do contexto da Saúde indígena, mesmo como todos os desafios que isso implica.

No meu mestrado me propus a estudar a inserção dos indígenas no fluxo de atenção à saúde nos âmbitos municipais e foi aí, na minha pesquisa, que fiquei face a face com o preconceito e a desigualdade social e constatei o quanto eles podem prejudicar o acesso aos serviços de saúde. Fiz uma pesquisa qualitativa, conversei com gestores municipais, com profissionais de saúde, com os indígenas para tentar levantar onde e como eles eram atendidos quando necessitados dos serviços de saúde fora das suas aldeias e vi que o mundo não é nada justo para algumas parcelas da população. Ouvi e presenciei falas de tentativas frustradas de acesso aos serviços de saúde, seja por preconceito, seja por um sistema de saúde que é pouquíssimo preparado para acolher a diferença. Foi aí que aprendi que um profissional de saúde, para assim ser verdadeiramente denominado, não pode assistir o cenário de saúde de dentro da sua unidade de saúde e sim precisa ser um ator social que ajuda a transformar esse cenário de inequidade.

Mesmo não trabalhando atualmente com saúde indígena, tenho acompanhado com muita preocupação os impactos e desafios do enfrentamento da pandemia causada pelo novo coronavírus dentro desse contexto, seja pelo perfil dos agravos que acometem atualmente a população, seja pelos aspectos culturais e até pela de dificuldade para se efetivar o acesso aos serviços de saúde nas cidades.

Trabalhar com saúde indígena é um desafio diário, e o crescimento profissional e pessoal, chegam na mesma proporção. Aos colegas farmacêuticos fica o convite: aproximem-se da organização da saúde indígena do seu município. Acredite: você terá muito a contribuir e receberá muito em troca.

Elizangela Vicuna é farmacêutica, especialista em Políticas Públicas, mestre em Saúde Coletiva, trabalhou como farmacêutica do Distrito Sanitário Especial Indígena de Cuiabá/FUNASA e atualmente é vice presidente do CRF MT e professora de pós graduação na área de Fitoterapia Clínica.

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Comemorando os 30 anos do Código de Defesa do Consumidor

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Comemorar o aniversário de promulgação do Código de Defesa do Consumidor é bastante significativo para a sociedade, principalmente ao Ministério Público, em razão das consequências diretas que a referida lei trouxe para a proteção do consumidor.

Promulgada em 11 de setembro de 1990, a Lei nº 8.078, qual seja o Código de Defesa do Consumidor, inseriu no ordenamento jurídico brasileiro uma política nacional moderna para as relações de consumo.

No entanto, o ano de 2020 está sendo marcado por uma pandemia de COVID-19, que afetou o mercado de consumo, impactando sobremaneira a vida dos consumidores.

Neste breve artigo, sem qualquer pretensão acadêmica, buscar-se-á exemplificar algumas situações nas quais o caminho a ser percorrido para proteger a coletividade de consumidores, em tempos de pandemia, impõe desafios a todos, desde aos órgãos de proteção até aos fornecedores.

1. Abusividade por elevação injustificada de preços

Atualmente, no mercado de consumo, é patente a elevação de preços, sejam de máscaras de proteção, medicamentos específicos para o tratamento da doença, e, recentemente, até mesmo de produtos alimentícios que compõem a cesta básica.

O consumidor, ao realizar suas compras nas farmácias e supermercados, vem se deparando com valores cada vez mais crescentes de diversos produtos, numa situação de perda progressiva do poder aquisitivo, impondo-o uma situação inequívoca de vulnerabilidade (1). E essa situação se agrava justamente porque a elevação de preços vem alcançando produtos essenciais tanto à proteção da saúde – como máscaras, álcool em gel e medicamentos -, quanto à própria sobrevivência física – como os alimentos que compõem a cesta básica.

Nesse contexto, o Código de Defesa do Consumidor, no seu artigo 4º, dispõe que a Política Nacional das Relações de Consumo objetiva o atendimento das necessidades dos consumidores, o respeito à sua dignidade, saúde e segurança, além, dentre outros, da proteção de seus interesses econômicos (2). A partir disso, inevitável que proteger o consumidor contra os aumentos abusivos de preços, principalmente com relação aos produtos essenciais, é um dos objetivos das normas que compõem a legislação que alcança trinta anos nesses dias.

A partir do instante em que os aumentos reiterados dos preços de produtos essenciais atentam à dignidade, saúde e segurança dos consumidores, colocando em risco, até mesmo, a sua perspectiva existencial, as normas do Código de Defesa do Consumidor devem incidir. E tais normas vedam toda e qualquer prática abusiva (3), precipuamente aquelas que coloquem o consumidor em condições desfavoráveis, seja abusando da sua boa fé, seja abusando de sua situação de vulnerabilidade.

De início, portanto, ressalvadas as hipóteses plenamente justificadas, não há qualquer dúvida de que o aumento reiterado dos preços dos produtos essenciais durante o estado de pandemia caracteriza uma prática abusiva, a qual deve ser afastada por força das disposições contidas no Código de Defesa do Consumidor. Primeiro, por tirar proveito da condição de vulnerabilidade agravada dos consumidores. Segundo, por atentar em desfavor da dimensão existencial dos indivíduos. E, terceiro, por violar a boa fé que deve estar presente em toda e qualquer relação de consumo.

Nesse aspecto, o Código de Defesa do Consumidor veda ao fornecedor a prática abusiva de explorar a vulnerabilidade do consumidor, como disposto no seu artigo 39, inciso IV (4). Assim, aproveitar da excepcional situação pandêmica, na qual os consumidores necessitam adquirir máscaras, álcool em gel, produtos medicamentosos, alimentos essenciais, dentre outros, para lucrar mais, caracteriza uma prática abusiva vedada por lei.

Se não bastasse isso, o Código em análise também proíbe exigir do consumidor vantagem manifestamente excessiva, assim previsto no seu artigo 39, inciso V5, o que torna evidente que cobrar mais do que o razoável por produtos essenciais à proteção da saúde e à existência dos indivíduos também não é admitido pela legislação consumerista.

E para complementar, aliado aos dispositivos acima mencionados, há, no Código de Defesa do Consumidor, previsão expressa, no artigo 39, inciso X (6), de que caracteriza prática abusiva elevar injustificadamente o preço dos produtos.

Cabe mencionar, entretanto, que nem toda elevação de preços será caracterizada como abusiva, o que exigirá dos órgãos e entidades que compõem o Sistema Nacional de Defesa do Consumidor, precipuamente do Ministério Público, uma análise ponderada, caso a caso, da existência de justa causa ou não para o aumento na precificação dos produtos.

Mas, a despeito das majorações justificadas, sempre que a elevação de preços tirar proveito das circunstâncias excepcionais pandêmicas, sem qualquer vinculação com o aumento dos custos dos produtos, haverá um flagrante desrespeito às normas contidas no Código de Defesa do Consumidor, em especial ao seu artigo 4º.

E, em consequência, tanto os Procons, quanto o Ministério Público, assim como os demais órgãos e entidades que compõem o Sistema Nacional de Defesa do Consumidor (7), deverão atuar na apuração das práticas abusivas, tendo à sua disposição um compêndio de normas exemplificativas das mais progressivas do mundo, qual seja o aniversariante Código de Defesa do Consumidor, tudo a assegurar o equilíbrio nas relações de consumo e o bem-estar da coletividade.

2. A revisão contratual no momento da pandemia

Com a pandemia do coronavírus transformada numa realidade amarga no país, a qual, inclusive, insiste em permanecer com os seus impactos econômicos e sociais, não há qualquer dúvida das consequências produzidas nos contratos de consumo vigentes.

Um notável exemplo pode ser observado nos contratos de prestação de serviços educacionais celebrados entre os consumidores e as unidades de ensino privadas, nos quais, com a perda do poder aquisitivo de parte das famílias, adveio a necessidade de equalizar as suas obrigações e reinstaurar o seu equilíbrio.

O remédio a esse apontado desequilíbrio contratual advindo das consequências sociais e econômicas decorrentes da pandemia está previsto no Código de Defesa do Consumidor, qual seja o disposto no seu artigo 6º, inciso V (8). Nessa norma, há a descrição de um direito básico do consumidor, qual seja o de requerer a revisão e modificação das obrigações contratuais em razão de fato superveniente à celebração do contrato, que tornem as prestações excessivamente onerosas.

No exemplo acima mencionado, evidente que a maior parcela dos contratos de prestação de serviços educacionais foram celebrados ao final do ano passado ou, quando muito, no início do presente ano, quando seja, portanto, anteriormente à instalação da pandemia no país. Além disso, o estado pandêmico trouxe para a grande maioria das pessoas uma perda crescente do poder aquisitivo, com baixas salariais, fechamentos de micro e pequenas empresas, demissões, reduções significativas de faturamentos e lucros, o que possui força suficiente para tornar as mensalidades escolares, até então justas e razoáveis, em prestações excessivamente onerosas.

Portanto, havendo um fato superveniente/posterior à celebração do contrato, o que, a ser analisado individualmente em razão das condições pessoais de cada consumidor, é capaz de tornar as prestações, até então justas e razoáveis, em obrigações excessivamente onerosas, ressai, por força do contido no Código de Defesa do Consumidor, o direito básico à revisão e modificação contratual.

Nesse sentido, conforme enuncia a legislação que alcança trinta anos de idade por agora, qual seja o Código de Defesa do Consumidor, tendo sido adquirido anteriormente à pandemia um produto ou serviço por meio de um contrato duradouro, que se alonga no tempo, cuja prestação, em razão das consequências econômicas do estado pandêmico, se torna excessivamente onerosa, é plenamente possível a revisão contratual com o objetivo de manter o equilíbrio entre as partes (9).

Em razão do consumidor, portanto, deter o direito básico ao equilíbrio contratual, desde que evidenciada a desproporção causada por fato superveniente/posterior à celebração do contrato, haverá a possibilidade de revisões dos mais variados negócios jurídicos, desde os contratos de compra e venda de bens imóveis celebrados com construtoras, passando pelos contratos de prestação de serviços de planos de saúde, sem prejuízo, ainda, além de outros mais, dos já mencionados contratos celebrados com as instituições privadas de ensino.

Além da teoria acima apontada, que é nominada como teoria da onerosidade excessiva, há, ainda, o argumento de que a mudança das circunstâncias econômicas, por força da pandemia e suas consequências, impôs, ainda, o reconhecimento da obrigação de negociar os contratos já celebrados com base no princípio da lealdade contratual decorrente da boa fé, que deve influenciar toda e qualquer relação entre indivíduos (10), máxime em tempos tão desafiadores a todos.

De outra banda, sob o grave risco de agravar uma crise econômica já odiosa, as revisões contratuais deverão sempre ponderar a vulnerabilidade do consumidor com critérios razoáveis e proporcionais, pois, assim como há o direito básico do consumidor à revisão contratual, também persiste a necessidade de manutenção da ordem econômica e da livre concorrência, conforme preconizados no artigo 170 da Constituição da República.

De nada adiantará assegurar revisões contratuais rigorosas e desproporcionais, sendo que, do outro lado, provocar-se-á uma quebradeira generalizada, principalmente de pequenos e médios fornecedores, com uma consequente concentração de mercado, a qual, como já é sabido, também impõe prejuízos severos aos consumidores.

E para isso, mais uma vez, torna-se imprescindível uma atuação sólida dos órgãos que compõem o Sistema Nacional de Defesa do Consumidor, com destaque para os proativos Ministério Público e Procons.

3. Conclusão

Num dos momentos mais graves e delicados da humanidade, a tutela do consumidor se impõe como verdadeira defesa de um direito fundamental, assegurado na Constituição da República, em especial nos seus artigos 5º, inciso XXXII, e 170, inciso V.

O Código de Defesa do Consumidor, ao completar trinta anos, está defronte, por agora, ao seu maior desafio, qual seja servir a uma efetiva proteção dos direitos consumeristas, lastreado nos valores da solidariedade, da fraternidade e da boa fé.

São tempos difíceis, mas não é possível descurar do fato de que todos, em algum momento, somos consumidores. Vida longa ao Código de Defesa do Consumidor, bem como às Promotorias de Justiça de Defesa do Consumidor espalhadas por todo o território nacional!!!

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