Justiça entrega dinheiro esquecido há 27 anos para família de trabalhadora que morreu

Era uma noite de quarta-feira do final da década de 90 quando Leolnilia Vieira Pinto, que este ano completaria 78 anos, morreu subitamente enquanto pregava na igreja que frequentava em Cáceres. Nessa época, ela movia uma ação na Justiça do Trabalho pedindo o pagamento de direitos devidos por uma escola da cidade, onde havia trabalhado por alguns anos.

O processo foi ajuizado em 1995, época em que os sistemas eletrônicos e as facilidades de buscas na internet ainda não estavam disponíveis. A sentença favorável saiu pouco tempo após a morte da trabalhadora e a empresa depositou o valor da condenação, que hoje equivale a mais de R$ 10 mil. A angústia da família com o falecimento da mãe e as dificuldades da época fizeram com que o dinheiro fosse esquecido.

Em todos esses quase 30 anos, ninguém procurou o judiciário para receber os valores. Foi neste agosto de 2022 que a equipe da 5ª Vara do Trabalho de Cuiabá realizou um pente fino nos processos arquivados e encontrou esse dinheiro esquecido. Resolveram fazer uma última tentativa, como explica a juíza Eleonora Lacerda. “Não tinha celular ou redes sociais para encontrar as pessoas na época e todas as tentativas de encontrar algum herdeiro foram frustradas. Agora foi feita uma revisão geral na vara e com os nossos servidores não tem tempo ruim: eles procuraram no google, instagram, facebook”.

Busca

O diretor da 5ª Vara de Cuiabá, Eugênio Borba, conta que a equipe iniciou uma saga em busca dos herdeiros. Com ajuda de um sistema de pesquisa em cartório, descobriram o nome dos filhos. Com essa informação, começou a procura das pessoas nas redes sociais. Em uma dessas pesquisas encontraram no facebook a farmacêutica Leila Vieira que, provavelmente, seria uma das pessoas que estavam procurando.

“No facebook dela encontramos a publicação de uma farmácia. Procuramos o telefone no google e, para minha surpresa, Leila era farmacêutica do empreendimento e filha da mulher que havia ajuizado a ação. Por ela, encontramos os outros herdeiros e conseguimos marcar a audiência”, detalha o diretor.

A audiência com todos os herdeiros foi realizada na última terça-feira (16) e contou com a presença do viúvo, quatro filhos da trabalhadora e um neto, já que um dos (filhos) irmãos já tinha falecido. “Era uma audiência que poderia ser triste, mas acabou sendo alegre com todos eles lembrando da mãe, esposa e avó”, conta a juíza.

Na época em que a ação foi ajuizada, Eleonora Lacerda ainda não era juíza do trabalho, mas já atuava na Justiça do Trabalho como servidora na recepção da presidência do TRT-MT. “É uma grande satisfação para nós do judiciário trabalhista ver um processo finalmente sendo quitado, ainda que a trabalhadora não esteja mais entre nós. Trouxe uma alegria e emoção muito grande para todos”.

Leila Vieira relembra que a mãe falava sobre fé à congregação da igreja no momento em que morreu. “Ela estava pregando sobre a fé descrita em Hebreus 11. A fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se vêem”.

Foi essa lição ensinada pela mãe a todos os filhos que fez com que ela e os irmãos tivessem a certeza de que o resultado da audiência e o recebimento do dinheiro nesse momento foi providência divina. “Saiu no momento certo para todos da família”, comemorou.

A data da audiência, por exemplo, foi no dia do aniversário de um dos irmãos. “Pensamos de imediato que esse dinheiro é como um presente da minha mãe pra gente. Além disso, trouxe boas lembranças dela, que era linda. Uma de nossas irmãs sofreu um acidente e já vai utilizar a parte dela para concluir os exames e o tratamento”.

Leila aproveitou para agradecer o empenho de toda equipe da 5ª Vara do Trabalho de Cuiabá. “Foi uma alegria e uma experiência única participar dessa audiência. Nunca imaginei que terminaria de forma tão fácil. Tem gente que usa a tecnologia para o mal, mas dessa vez foi usada para o bem. Nós já tínhamos desistido. Esse trabalho de investigação que fizeram para nos encontrar foi muito bonito. Sou só gratidão”.

Quando morreu, a mãe de Leila tinha 54 anos. “Se ela estivesse viva ficaria muito feliz de ver que os filhos receberam o dinheirinho que ela esperou tanto. O pouco com Deus é muito e vai valer para todos nós”.

(Sinara Alvares)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *